Fonte / Rodrigo Aguiar

O uso da cota parlamentar pela bancada baiana na Câmara dos Deputados caiu 42% com a pandemia do coronavírus. Entre março e junho de 2019, os 39 deputados federais baianos utilizaram R$ 5,88 milhões. Este ano, no mesmo período, as despesas totalizaram R$ 3,45 milhões. O único deputado baiano a aumentar as despesas no período analisado foi Igor Kannário (DEM). Entre março e junho do ano passado, ele usou R$ 52,6 mil da verba. O montante quase dobrou, passando para 103,2 mil. Kannário gastou R$ 50 mil de consultoria em quatro meses. Procurado, o deputado não se manifestou até o fechamento.

Também conhecida como cotão, a verba pode ser utilizada para bancar passagens aéreas, telefonia, manutenção de escritórios, alimentação, hospedagem, aluguel de veículos, combustíveis, consultorias e divulgação do mandato, entre outros gastos. Apesar da economia geral, puxada principalmente pela ausência de viagens a Brasília, alguns números ainda chamam a atenção. O deputado Daniel Almeida (PCdoB), por exemplo, aumentou em 61% a verba para divulgação do mandato. Entre março e junho do ano passado, foram gastos R$ 58,7 mil. Em 2020, o montante saltou para R$ 94,7 mil.

O parlamentar lidera, na bancada baiana, o ranking do uso do cotão durante a pandemia. No total, o comunista utilizou 151,9 mil – o que significa que utilizou 62% disso para divulgar o mandato durante a pandemia. “O ritmo de funcionamento da Câmara mudou o formato, mas se mantém. Temos aprovado mais matérias do que em outros períodos. No meu caso específico, houve alguns ajustes, deslocando gastos com deslocamento para estrutura de comunicação, com as lives, sessões virtuais, etc. Foi isso que aconteceu”, afirma o deputado. Em segundo, Ronaldo Carletto (PP) gastou R$ 139,5 mil nos quatro meses referidos. Além disso, o padrão de uso da cota parlamentar do deputado pouco mudou com a Covid-19. No mesmo período do ano anterior, ele gastou apenas R$ 5 mil a mais. A reportagem não conseguiu contato com Carletto.

Quem também manteve praticamente o mesmo nível das despesas foi Lídice da Mata (PSB). A diferença foi de R$ 8,6 mil, já que, durante a pandemia, ela gastou R$ 102,1 mil da cota parlamentar e, nos mesmos meses do ano passado, as despesas totalizaram R$ 110,7 mil. Lídice pontua, porém, que pouco utilizou a cota no ano passado, em relação a seus colegas. Nos referidos meses em 2019, somente Adolfo Viana (PSDB) e Igor Kannário tiveram menos despesas do que ela. “Agora, eu tenho compromissos que não posso deixar de manter. Começaria a ter prejuízo de mandato. Não tenho partido grande”, afirma Lídice. Entre suas maiores despesas entre março e junho deste ano, estão 31 mil pagos a título de consultoria.

Na outra ponta do ranking, Bacelar (Podemos) está entre os que menos usaram a verba nesse período – foram R$ 48,6 mil utilizados. Entre as despesas cortadas, ele cita aluguel de veículos para viajar ao interior da Bahia ou rodar em Brasília, gastos com combustível e material de divulgação. “Eu não viajei, estou há 120 dias em casa praticamente. Só vou ao escritório de vez em quando. E toda viagem que a gente vai, levamos jornal, panfleto, o povo pede o material no interior”, afirma Bacelar. Antes do “novo normal”, porém, a situação era outra. Bacelar foi o deputado baiano que mais fez uso da cota parlamentar entre março e junho de 2019, com R$ 193,2 mil. Desse valor, foram R$ 71,2 mil apenas com divulgação do mandato. Com a pandemia, a verba destinada a esta função diminuiu para R$ 31,9 mil.

“Eu, pessoalmente, acho que a cota deve ser usada, se você tem necessidade. É um instrumento do mandato. Se tiver tudo normal, eu tenho despesa para isso. Todo final de semana a gente viajava. É gasolina, almoço, material”, argumenta Bacelar, ao ser questionado sobre o valor costumeiramente usado. Em maio do ano passado, suas despesas contabilizaram R$ 61,2 mil. O valor ultrapassa o limite mensal de R$ 39 mil estabelecido para os parlamentares da Bahia. No entanto, quando excedido o limite mensal, os deputados costumam compensar em outros meses para não bater a cota. Além disso, os gabinetes têm um prazo de até 90 dias para prestar contas das despesas.